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Acesso físico: Arquitetura democrática

Acessibilidade e o desenho universal

Como vocês imaginam que era a utilização dos equipamentos culturais na década de 60, no Brasil, por uma pessoa com deficiência, que já com seis meses teve pólio e andou sempre em cadeira de rodas?

Com certeza, posso contar para vocês que não era fácil, pois esta é minha história. Posso até dizer que era raríssimo encontrar um cadeirante passeando em algum equipamento de lazer... Não existiam leis nem consciência de que as pessoas com deficiência necessitavam de alguns parâmetros construtivos um pouco diverso do que se aplicava na época.

Passei a faculdade inteira sem ir ao banheiro, pois ele era no meio dos patamares das escadas e, diga-se de passagem, a faculdade era de arquitetura. Meus colegas me subiam com a cadeira por três andares de escada para chegarmos as salas de aula e ao ateliê, onde eram ministradas as aulas de projeto.

Bibliotecas, cinemas, teatros... não se pensava em acessibilidade. Essa história aconteceu comigo, acreditem, ou não: fui assistir a uma peça que estava passando no Teatro Ruth Escobar, nos anos 80, e depois que compramos o bilhete nos disseram que o local era inacessível. Neste momento, um homem indignado apareceu e me carregou no colo da bilheteria, até a poltrona do teatro por três andares, quase morri de medo! Quando começou a peça, quase morri de rir: ele era o artista!

A cidade de São Paulo foi uma das pioneiras na implantação da acessibilidade no Brasil. Em 1993, já surgiu a primeira lei em São Paulo que dava o prazo de três anos para que edificações existentes com mais de 600 pessoas (cinemas, teatros, locais de reunião como restaurantes com mais de 100 pessoas) se adaptassem. Infelizmente, não foi tão rápido assim, mas já temos vários locais de lazer atendendo a esta lei.

Vamos contar um pouco desta evolução...

O conceito de desenho livre de barreiras, ainda muito centrado só nas pessoas com deficiência, acabou evoluindo para o de desenho universal, adotado inicialmente nos Estados Unidos. Universal por se destinar a qualquer pessoa e por ser fundamental para tornar possível a realização das ações essenciais praticadas na vida cotidiana por todas as pessoas, inclusive as com deficiência. O que, na verdade, é uma consolidação dos pressupostos dos direitos humanos.

Quanto mais um ambiente se ajusta às necessidades do usuário, mais confortável ele é. Todavia, se ocorre o inverso, quando o ambiente construído não leva em conta as necessidades ou limitações humanas, ele pode chegar a ser mais inóspito do que o meio natural.

Como viram, a acessibilidade e o desenho universal servem a todos. Quanto mais os ambientes culturais levarem este quesito em consideração, mais público vão atrair para seus ambientes e a cultura dos “Espaços para Todos” será mais difundida.

Aproveitem as dicas deste guia e bom entretenimento!

Silvana Serafino Cambiaghi
Arquiteta, Mestre Desenho Universal pela FAU-USP.