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Audiodescrição e a Deficiência Visual e Cegueira

Acesso a Cultura: Um sinal de mudança

As visitas aos espaços culturais da cidade em busca das informações sobre as ofertas de acessibilidade para pessoas com deficiência foram experiências únicas. Enfrentamos desde recepções com “tapete vermelho” e cafezinho em salas privativas reservadas para poucos - com muito interesse em tornar o espaço acessível, até enormes dificuldades em entender e aceitar nossa pesquisa, quase impedindo nossa presença nas instituições. Alguns, inclusive, chegaram a pensar que estávamos fazendo vistoria para posteriormente multá-los ou que iríamos vender as informações coletadas para alguém. Se essas barreiras foram encontradas pela equipe durante a pesquisa, podem também refletir-se como uma barreira atitudinal em relação ao público com deficiência. Podemos entender que esse não é considerado enquanto público freqüentador de espaços de cultura.

A acessibilidade em espaços culturais tem como característica principal que seu espaço, programação, informação, estratégias de comunicação e ação educativa estejam ao alcance de todos os indivíduos. Ou seja, para que um espaço cultural seja realmente acessível, precisa de requisitos para que sua programação possa ser usufruída por todos, independentemente da condição física, sensorial, intelectual ou comunicacional das pessoas.

Por exemplo, as pessoas com deficiência visual precisam receber as informações dos espaços de cultura por meio de seus sentidos, como o tato e a audição, pois tem sérios comprometimentos visuais ou cegueira total; já as pessoas surdas, que tem como primeira língua a LIBRAS – Língua Brasileira de Sinais, precisam da comunicação em LIBRAS, diferente da verbal ou gráfica; as pessoas com deficiência intelectual precisam de respeito às suas diferenças cognitivas, com relações humanas livres de preconceitos e textos mais objetivos.

Uma instituição cultural que realmente tenha o desejo de ser acessível deve garantir a autonomia do indivíduo em todos seus serviços, sejam eles básicos (banheiros, bebedouros e cafeterias), permanentes (circulação no edifício, exposições permanentes e midiatecas) e temporários (exposições, projetos e oficinas).

Garantir os direitos das pessoas com deficiência traz benefícios não apenas à população de pessoas com deficiência, mas para todos os indivíduos pelo respeito às diferenças de locomoção, percepção e comunicação inerentes ao ser humano. Porque mesmo que não tenhamos uma deficiência, idosos todos seremos e isso impactará definitivamente na nossa mobilidade, visão, audição.

Se por um lado as recepções desconfiadas nos entristeceram, por outro podemos considerar que essas atitudes mostram que não estar acessível é uma preocupação significativa por parte dos espaços de cultura, e isso é um sinal da necessidade de mudança.

Viviane Panelli Sarraf
Museóloga, com experiência em acessibilidade cultural para pessoas com deficiência e mobilidade redu